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Movimento estudantil | Eleições DCE UFRGS: quais as principais lições para o movimento estudantil?

Depois de 3 anos sem eleições de DCE e 2 anos de ensino remoto, finalmente as eleições estudantis ocorreram na UFRGS, reforçando a importância das nossas entidades estudantis e do debate político e programático entre os estudantes. Nesse texto, nós da Juventude Faísca Revolucionária, que compusemos junto a estudantes independentes a chapa 6 “Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível”, fazemos um balanço desse processo, das chapas participantes e dos principais debates que ocorreram para tirarmos conclusões que fortaleçam o movimento estudantil da UFRGS frente aos desafios que estão colocados.

sexta-feira 9 de setembro | Edição do dia
Foto do debate entre chapas no Campus do Vale

Foi sob o quarto ano do governo reacionário de Bolsonaro e diante da reitoria interventora de Bulhões e Pranke que o movimento estudantil da UFRGS realizou as eleições estudantis, um momento importante de politização entre os estudantes e decisão sobre a direção do nosso DCE. Encerrada no dia 17 de agosto, o quórum total foi de 5.894 votantes, sem contar nulos e brancos (que não foram disponibilizados pela Comissão Eleitoral), 461 votos a menos do que na última eleição, que ocorreu em 2019. Contando os 32.356 alunos matriculados na graduação, isso significa que 18% dos estudantes da UFRGS participaram do processo eleitoral em 2022. A disputa deste ano contou com a participação de seis chapas.

A chapa vencedora foi a chapa 2 “Retomada Popular - Radicalizar para avançar” (composta pela UJC e Coletivo Indígena) com 1848 votos. Logo atrás, em segundo e terceiro lugar, ficaram as chapas 5 “Eu defendo a UFRGS” (composta pela UJS/PCdoB, PT e Levante Popular da Juventude) e 4 “Lutar e mudar as coisas” (composta pelo Juntos, Alicerce e Ocupe do PSOL e Correnteza/UP), com 1686 e 1584 votos respectivamente. A chapa 3 “Ocupar a UFRGS, semear o futuro” (composta pelo Afronte/PSOL e juventudes da Frente Povo Sem Medo) teve 301 votos; a chapa 1 “Muda UFRGS - Para além da militância” (composta pelos direitistas do PSDB e Cidadania) teve 287 votos; e por fim a chapa 6 “Sejamos realistas, exijamos o impossível” (composta por nós da Juventude Faísca Revolucionária junto a independentes) com 188 votos.

O que esse resultado final expressa? E quais lições podem ser tiradas das discussões feitas nesse processo eleitoral? Para refletir isso, é preciso ver qual política e programa foram defendidos por cada uma das chapas, resgatando os debates e as respostas apresentadas.

Em primeiro lugar, é importante perceber que o resultado final que elegeu a chapa 2 foi, na verdade, muito aproximado do número de votos das chapas 5 e 4, o que impõe desafios à nova gestão do DCE já que não conquistou uma ampla maioria dos estudantes. Queremos dialogar com aqueles que votaram na chapa 2 e desejam realmente transformar o movimento estudantil, construir algo mais radical e rechaçar a política majoritária da UNE e da antiga gestão. Afinal, é compreensível que se busque uma alternativa nessa situação. Nesse sentido, o que a vitória da chapa 2 representa? Muitos estudantes podem se questionar: essa vitória é expressão de um movimento mais à esquerda, radical e comunista dentro da nossa universidade? Consideramos que não e vamos mostrar como, apesar da imagem radical, a agitação da chapa flertou bastante com um sentimento despolitizado, anti movimento estudantil, adaptado à conciliação de classes lulista e surfou na onda de forte desgaste que as outras duas maiores chapas (4 e 5) representaram.

Alguns dos vídeos que essa chapa viralizou nas redes, por exemplo, reproduziam discursos que mais se assemelham ao que historicamente a direita defende no movimento estudantil do que a qualquer coisa relacionada ao comunismo: as reclamações de passagens em salas de aula e panfletagens são ilustrativas disso (como se fosse um problema em si passar em sala de aula ou disputar a consciência dos estudantes, que são meios essenciais da história e tradição do movimento estudantil). Suas agitações davam peso excessivo para mudanças meramente organizativas do DCE (se apresentaram como a única chapa que tinham mudanças na forma de gestão, o que não era verdade). Ou seja, nas publicações, vídeos e cartazes espalhados pela universidade, fizeram uma campanha extremamente focada em discussões de método, secundarizando a política.

O desgaste da antiga gestão (representada pela chapa 4, mas que também era composta, até pouco tempo antes da eleição, por UJC e Afronte, das chapas 2 e 3), combinado com o desgaste da atual direção da UNE (representada pela chapa 5) e a violência física entre as duas chapas, foram importantes cabos eleitorais da chapa 2. Apesar de a UJC ter sido parte durante quase 3 anos da antiga gestão (chapa 4), tendo rompido sem grandes diferenças políticas e críticas fundamentalmente de método, eles conseguiram se apresentar como algo diferente. O peso do coletivo indígena foi importante para isso também, pois representou, entre outras coisas, o elemento da luta radical que impôs a conquista da casa dos estudantes indígenas sobre a reitoria interventora. O DCE estar sob comando de estudantes indígenas configura feito inédito, particularmente significativo em uma universidade tão elitista e sob comando de uma reitoria bolsonarista como é a UFRGS.

Contudo a contradição política é o maior empecilho para a chapa 2 concretizar essa radicalidade que diz defender, já que na estratégia pouco se diferencia das gestões antigas das chapas 4 e 5. A proposta de “reconstruir o movimento estudantil” esbarra na total ausência de um combate e uma alternativa política às burocracias universitárias que hoje controlam as universidades públicas, como a UFRGS. Isso fica nítido na medida em que no programa da chapa 2 todas as propostas de mudança para a UFRGS possuem o viés de subordinar as lutas para fazer “pressão institucional” pela via do CONSUN e da reitoria ou do próprio MEC. A própria UJC, por exemplo, quando estava na gestão junto do PSOL e da UP, apostou na benevolência e boa vontade do MEC, sob comando do bolsonarista Milton Ribeiro, para destituir Bulhões quando foi empossado - ou seja, uma estratégia que nutre ilusões na institucionalidade. Diziam “empurra que ele cai”, em referência às movimentações do Consun, depositando esperanças de que a burocracia acadêmica - que além da reitoria inclui pró-reitores, chefias, que se mantêm através de salários acumulados, administrando a universidade para as elites - ou o regime iriam combater o intervencionismo bolsonarista. Ou seja, ao invés de apostar na auto-organização dos estudantes para o combate, apostaram em cartas e palavras das instituições, exatamente o mesmo que fazem PT e UJS na majoritária da UNE, representada pela chapa 5. Acontece que nada virá do Consun ou da reitoria: para se ter uma ideia, dos 77 membros do Consun, 53 são professores (entre diretores, membros da reitoria e representantes docentes), sendo que alunos da graduação possuem 7 representantes, da pós-graduação 2, técnicos 9 e terceirizados possuem apenas 1 representante (que não é específico dos terceirizados, e pode mudar numa próxima gestão). Ou seja, trata-se de um espaço absolutamente antidemocrático, com um verniz democrático para os estudantes poderem falar, mas não decidir nada, controlado por uma casta de professores.

É necessário romper com essa estratégia de “pressão institucional”, que as chapas 2, 3, 4 e 5 defenderam, e erguer um programa que coloque a necessidade de acabar com a reitoria e o Consun e todas as heranças da ditadura militar para construir um poder verdadeiramente democrático na universidade, com uma gestão composta pelos três setores de acordo com seu peso na comunidade acadêmica e por isso com maioria estudantil, e uma universidade a serviço dos trabalhadores e da maioria da população. Isso tudo poderia ser implementado através da instauração de um processo estatuinte imposto pela mobilização. Isso sim seria “reconstruir o movimento estudantil”, pois se trata de um programa contra essa estrutura de poder, não de reformas cosméticas. E para levar esse programa a frente, não só não podemos colocar o movimento estudantil a reboque das burocracias, como também não podemos confiar que a direita será nossa aliada. A mesma direita que se coloca hoje como oposição a Bolsonaro, até ontem estava apoiando todos os cortes na educação, ataques e reformas contra a juventude. Nossos únicos aliados na luta por uma universidade radicalmente diferente, que coloque sua ciência, arte e produção a serviço da maioria da população e não dos lucros, são os trabalhadores de dentro e fora da UFRGS.

Nesse quesito, os tucanos e liberais da chapa 1 são inimigos declarados: apoiaram o Future-se e seguem defendendo que a UFRGS abra suas portas à iniciativa privada. Porém tampouco as demais chapas 3, 4, 5 e mesmo a vencedora 2 eram uma alternativa, já que todas apostam na via da conciliação de classes, com suas organizações, inclusive também da chapa 1, chegando a assinar junto de banqueiros e dos grandes empresários da FIESP uma carta em defesa da democracia (dos ricos), que de democrática não possui nada, uma vez que representa os interesses daqueles que outrora apoiaram o golpe militar de 1964 e o golpe institucional de 2016, além de todas as reformas que precarizam nossas vidas. Tivemos que ouvir integrantes da chapa 2, militantes da UJC, afirmando inclusive que essa assinatura junto da burguesia é parte das “mediações ao socialismo” presentes entre o programa mínimo e o programa máximo (!!). Muito longe de Lenin e do comunismo, mas em acordo com a velha tradição stalinista de conciliação de classes.

É por essa lógica que a chapa 2 se furtou de dar qualquer combate à aliança com a direita que o PT e a chapa Lula-Alckmin hoje representam, e sequer mencionaram o PT ou Lula em seus 107 pontos de programa. Como consequência, eles acabam por se construir de forma oportunista, ou seja, abarcando setores petistas, pró-conciliação, e, dessa forma, surfando na onda lulista, sem se confrontar com a conciliação com a direita liberal (Alckmin, latifundiários, banqueiros, etc, a quem Lula está estendendo a mão). Para não perder votos, deixam de dar o necessário combate para a elevação da consciência dos estudantes – uma prática de rebaixamento programático historicamente levada à frente pela UJS, PT, PSOL e outras correntes. Ou seja, um programa que se adapta à conciliação de classes e está bem longe das auto-proclamações "comunistas" da UJC, acabando por reproduzir o que Lenin combate em “Que Fazer?”, pois não batalham pela elevação do nível de consciência política dos estudantes. É um radicalismo na forma, mas com conteúdo adaptado à conciliação que Lula, o PT e o PSOL propõem.

Vale também ressaltar a total falta de sentido de existência da chapa 3, levada à frente pelo Afronte/PSOL, que deixou dúvidas entre os estudantes sobre o porquê não estavam junto da chapa 5, já que a política é a mesma. Até nos debates essas chapas atuavam em bloco e isso não é à toa, uma vez que o Afronte/PSOL está encabeçando entusiasticamente a diluição do PSOL na conciliação petista. E por último, não podemos deixar de repudiar o gritante corporativismo predominante na política e no programa das chapas 4 e 5, escancarado na fala do dirigente da UP (chapa 4) em um debate de chapas. Ao ser questionado sobre o absurdo que foi o abaixo-assinado que eles fizeram para “melhorar” o RU, o que endossou a demissão de dezenas de terceirizados, o membro da chapa 4 disse: “o DCE é uma entidade para defender o interesse dos estudantes” e que são os estudantes “a categoria que o DCE representava naquele momento” e terminou com um deboche dizendo para nós “disputarmos o sindicato dos terceirizados” se queremos falar dos trabalhadores. Contra essa concepção estudantilista, nós da chapa 6 insistentemente defendemos a aliança entre trabalhadores e estudantes, com entidades estudantis que sejam ferramentas de luta, para construir um movimento estudantil cujas demandas não signifiquem derrotas para os trabalhadores (como ocorreu com a política de abaixo assinado da antiga gestão) - pelo contrário, que seja um movimento estudantil política e programaticamente aliado aos trabalhadores dentro e fora da universidade. Essa política que enxerga apenas demandas “corporativas” dos estudantes é funcional à reitoria e aos cortes, pois divide a comunidade universitária e tenta impedir com que essa poderosa aliança seja forjada na luta.

Nós da Faísca Revolucionária fizemos, junto a estudantes independentes, uma campanha radicalmente distinta através da chapa 6 “Sejamos realistas, exijamos o impossível", com uma política e programa enfrentados frontalmente contra o bolsonarismo, a direita e os ataques do conjunto do regime, na contracorrente da conciliação que Lula e PT propõe, apostando na via da auto-organização dos estudantes em unidade com os trabalhadores. Insistimos na necessidade da independência política do movimento estudantil como tarefa preparatória para os desafios que virão – independentemente de quem vencer as eleições, a direita bolsonarista seguirá existindo e a crise capitalista vai impor que o próximo governo siga ajustes contra os trabalhadores e a juventude. Daí a necessidade de um movimento estudantil que se prepare para a luta de classes, não para as inofensivas pressões institucionais ou alianças com a direita. Na nossa concepção, e nesse sentido que disputamos as eleições de DCE, as entidades estudantis precisam ser ferramentas que impulsionam essa auto-organização, apostando no caminho da luta dos estudantes aliados aos trabalhadores, batalhando para que esses sejam sujeitos da política, caminho contrário que faz as direções da UNE, subordinando as indignações dos estudantes às vias eleitorais. Atuamos dessa maneira resgatando as grandes lições que os jovens e trabalhadores deixaram com o levante de maio de 1968, questionando a universidade de classe como parte de questionar a sociedade de classes.

Nós não aceitamos pagar a conta dessa crise e por isso lutamos para que sejam os capitalistas que paguem por ela. Chamamos todos os jovens que querem colocar o bolsonarismo e a extrema direita, que na UFRGS deu nojentos sinais como no DAIB e na Farmácia, na lata de lixo da história, que não aceitam o futuro de miséria e nem o caminho da conciliação que desvia nossa luta, a travarem essas batalhas conosco dentro da UFRGS e conhecendo também nossa candidatura revolucionária no RS, representada pela Valéria Muller, que é parte de agitar essas ideias também no terreno eleitoral. Como parte de usar a teoria revolucionária como guia para a ação, chamamos também os estudantes a participarem dos nossos grupos de estudo “Marx na UFRGS” que realizamos no IFCH.




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