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Mestre Môa, o filme que passa na nossa cabeça

Letícia Parks

Mestre Môa, o filme que passa na nossa cabeça

Letícia Parks

Entrou em pré-estreia o documentário musical Môa, Raiz Afro Mãe, produzido pela Kana Filmes, que canta e conta a trajetória do Mestre Môa do Katendê, assassinado em meio à turbulência eleitoral de 2018 por um apoiador de Bolsonaro e a poucos dias de completar 64 anos de idade. A notícia de seu assassinato golpeou capoeiras, afoxés, educadores e ativistas antirracistas de todo o país, que imediatamente protestaram por justiça e buscaram contar às gerações que não conhecem a trajetória desse grande homem - e ao mundo - que tipo de pessoa o bolsonarismo tentou arrancar de nós. Esse filme consegue fazer isso da forma sublime e espetacular que apenas o cinema consegue fazer, lembrando o Môa do Badauê, do Katendê, da capoeira nas escolas de São Paulo, das músicas de Caetano e Gil. O moço lindo da Bahia que revolucionou o Carnaval e que espalhou cultura afro pelo Brasil e pelo mundo e que agora vive em nossas lutas.

"Quando morre um capoeira,
morto assim à traição,
fica íngreme a ladeira e mais pesado o caixão"

Chico César, na ocasião do assassinato de Mestre Môa em outubro 2018

Mestre Môa, o filme que passa na nossa cabeça

Quando o e-mail chegou avisando que o filme Môa, Raiz Afro Brasil saiu do forno, nossa reação foi imediata: temos que ir. A alegria incontida de quando recebemos a resposta de que tinha lugar pra gente. Nesse grupo que fomos ver o filme, estivemos todos juntos na rua quando a notícia do assassinato de Mestre Môa tocou nossos ouvidos. Organizaram nossos tambores, e ao lado de jovens e trabalhadores brancos também antirracistas, contribuímos à marcha de São Paulo com uma faixa que homenageava Mestre Môa. Entre o dia 08 de outubro e 10 de outubro de 2018, se dedicaram a ela as mãos de um metroviário, uma professora e um entregador, todos artistas.

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Na rua, cantávamos com a massa que se somou a essa homenagem-luta: "Mestre Môa, presente!". Meu irmão empunhou o microfone e cantou comovido "chega de sangue jorrado, chega de preto morrer, do Katendê é o Môa, Môa do Katendê". Emocionados, cantamos também a rima de Chico César feita um dia antes do ato: "Quando morre um capoeira, morto assim à traição, fica íngreme a ladeira e mais pesado o caixão".

Quando um filme surge para contar algo que se conecta com uma experiência de luta, é impossível não ver o filme na tela sem rever o filme dessa experiência. Esse filme sem título, do que vivemos, da angústia frente ao inesperado: a ascensão à presidência de um racista que comparou negros a gado, um apoiador da tortura que reverencia Carlos Alberto Brilhante Ulstra. Se o assassinato de Marielle Franco serviu para trazer o recado de que nós negros e socialistas não estaríamos protegidos nem mesmo por um mandato político, o assassinato de Môa simbolizou a perseguição aberta a nossas lideranças culturais que o bolsonarismo poderia significar: um choque a direita nas relações raciais. Isso porque houve sujeitos que, frente à opressão da ditadura militar, voltaram seus olhos pros passos que dava o movimento negro nos Estados Unidos, e sem colocar de lado o atabaque, o agogô, o berimbau e o pandeiro, produziram uma revolução estética que ecoou o grito do internacionalismo antirracista pela dança e pela cultura. Sem tirar nem pôr, esse foi Môa do Katendê, um revolucionário da estética e um mestre da tradição.

Môa, Raiz Afro Mãe, 2022, Kana Filmes

Os estivadores baianos eram uma categoria muito organizada na Bahia de 1940. Não tinham patrões e era com o sindicato que garantiam a organização do trabalho nos enormes e estratégicos portos de Salvador. Sem ter parte da renda de seu trabalho roubada pelo patrão, em 1948 eles decidem participar do Carnaval de Salvador com um bloco seu dedicado à comunidade negra. O bloco dos estivadores desfilou sob o nome de "Comendo Coentro" e era um verdadeiro banquete sobre rodas, distribuindo comida afro-brasileira para a comunidade e com instrumentos musicais do terreiro espalhados por todo o caminhão que, de forma sincronizada, tocavam músicas que homenageavam a tradição africana no Brasil.

Em 1949, vítimas dos abusivos impostos do governo sobre os sindicatos - afinal de contas, a burguesia adora perseguir nossos mecanismos de auto-organização - os estivadores se viram ameaçados de poder sair novamente às ruas, e decidiram então por manter a festividade afro brasileira recorrendo a uma organização comunitária do bloco, em forma de cordão ao invés de bloco. Com lençóis, foi produzido o vestuário e, com a ajuda de várias outras categorias operárias, os instrumentos e os cantos chegaram a um volume muito maior de gente, e por ideia de um dos estivadores, decidiram homenagear o indiano Ghandi, que do outro lado do mundo, lutava pela liberdade de seu povo. Filhos de Gandhy foi às ruas pela primeira vez e conquistou multidões.

O ritmo ijexá, as expressões religiosas e tradicionais da cultura africana, o vestuário do terreiro, nada disso foi novidade em Filhos de Ghandy. O afoxé baiano já saía no carnaval dessa forma desde o século XIX, repetindo no Brasil as festas profanas africanas, que também levavam seus orixás pra rua. Talvez a paixão arrebatadora que esse bloco de estivadores produziu se deu ao fato de que olhou pra fora, pro mundo, pra voltar novamente pra si. A partir de então, quando incorpora definitivamente as características do afoxé em 1951, Filhos de Ghandy se transformou no principal bloco de afoxé e foi vencedor de diversos concursos de Carnaval.

Esse olhar pra fora, essa "conversa" com os que lutam por liberdade… foi algo parecido com isso que aconteceu com o ainda jovem Môa quando em 1978 propôs que se levasse pra rua um bloco afoxé totalmente reconfigurado. A dança tinha uma levada mais rápida, as roupas pareciam saídas de diferentes vertentes de movimento negro e do afro soul estadunidense, e o canto, em português, faria toadas simples e fáceis de reproduzir, quase sempre falando em liberdade. O bloco rapidamente ganhou notoriedade e atraiu os curiosos musicistas, como Caetano e Gilberto Gil, que perceberam na musicalidade de sincretização uma revolução estética, que se reproduziria fugazmente nas mãos de vários outros artistas que olharam paralelamente às lutas no mundo, às cores e sons que elas produziram, e mesclaram com as cores e sons que produzimos aqui há séculos. É como se para o Carnaval se reinventar, tivesse que se fazer o mesmo que foi feito pelos estivadores em 1949, mas pelas mãos de uma nova geração. E assim foi.

O Badauê, com canções compostas pelo jovem Môa, ganhou a cidade, o estado e o país. Decidiu que a rainha da bateria seria o "moço lindo", organizando a cada carnaval a eleição de um moço dançarino como representante do cordão, promovendo uma espécie de distorção progressista das noções de gênero do Carnaval.

Com o Badauê, Môa atraiu a amizade de intelectuais e artistas brancos, devotos da luta negra por liberdade, como Pierre Bourdieu, antropólogo e sociólogo francês, Antonio Risério, antropólogo, poeta e ensaista brasileiro, Arlete Soares, fotógrafa e editora brasileira… Môa foi um verdadeiro devoto da unidade entre negros e brancos na luta contra o racismo e pelo direito à infância, à cultura, ao lazer. Na sua trajetória de reencontro com a capoeira, que aprendeu pela primeira vez ainda menino, deu as mãos a mestres de norte a sul do Brasil, buscando promover a expansão da capoeira pelo Brasil e pelo mundo. Mestre Plínio Ferreira, com quem explorava São Paulo, e os Mestre Lua de Bobó, ao lado de quem estudou com Mestre Bobó e se formou capoeirista.

É com essa trajetória da pessoa que foi Mestre Môa que o brilhante filme-canção de Gustavo McNair, que conforme conta o diretor à revista Piauí, foi um filme que começou com Môa vivo, como depoente de seu próprio doc-musical. A primeira entrevista, de 1 hora e que aparece entrecortando os outros relatos ao longo do filme, teria sido a primeira de muitas com o Mestre que queria, junto de McNair, contar sua história como parte da história da luta por um futuro onde o negro tivesse um lugar de destaque na cultura nacional. A entrevista, ocorrida em 26 de fevereiro de 2018, seria a primeira de algumas para construir o documentário, e terminou tragicamente sendo a última devido ao assassinato a facadas de Môa em 8 de outubro do mesmo ano, um dia após o primeiro turno eleitoral e imediatamente após a discussão com seu assassino, eleitor de Bolsonaro.

Com esse filme, McNair e toda a equipe envolvida na produção do documentário - e do álbum musical que o acompanha, disponível aqui- permitem que o filme que passa na nossa cabeça se enriqueça da história desse grande homem que foi Mestre Môa, e nos ajude a seguir com os dois pés na luta por um futuro livre de racismo, xenofobia, onde a classe trabalhadora, essa maioria negra, que mesmo sob tanta opressão e violência cria parte do que existe de mais apaixonante na cultura brasileira e mundial. Môa foi e é um símbolo vivo do que essa cultura faz, transforma e produz. Sem dúvidas, quando essa classe trabalhadora tomar as rédeas do mundo, é inimaginável a quantidade de criação que vai se libertar, e o quanto essa criação vai, em primeiro lugar, contribuir no próprio processo de superação revolucionária dos limites da sociedade capitalista. Eu costumo dizer que a revolução no Brasil vai ter som de tambor e de berimbau. Que uma nova sociedade nos permita expressar livremente nossa cultura, no pensamento, na história, e transformar o mundo, hoje esse triste palco de violências, em um eterno Badauê.

Veja mais: Uma breve – e política – história de Moa do Katendê


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do Quilombo Vermelho
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