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O reggae entre a Jamaica e o Maranhão: o som da luta negra

Renato Shakur

O reggae entre a Jamaica e o Maranhão: o som da luta negra

Renato Shakur

Nei Lopes quando viu pela primeira vez uma radiola maranhense não teve como não compará-las aos bailes soul, um fenômeno de massas, operário e negro [1]. As radiolas são as caixas de som que formam um “paredão” de caixas, semelhantes aos sound system jamaicanos. Era com elas que os trabalhadores e trabalhadoras maranhenses podiam ouvir reggae e dançar nos bailes durante a ditadura militar.

A partir da metade dos anos 1970 as radiolas passaram a se popularizar em São Luís e aconteceu um boom em sua organização e disseminação na cidade [2]. Justamente no momento de retomada tanto no campo cultural quanto no sindical do questionamento do regime militar brasileiro, os trabalhadores no Maranhão organizaram seus próprios bailes, assim como no Brasil todo. No Maranhão, esse momento de contestação da ditadura foi sentida na pele e ganhou uma forma concreta através das radiolas que eram idênticas aos sound system jamaicanos [3].

Mas voltemos ao Maranhão. “O reggae é uma espécie de música soul com ritmos africanos” [4]. Não há melhor definição do que essa. Isso porque também foi um estilo musical originado a partir da relação com outros tipos musicais como o mento, a salsa, ska, rocksteady entre outros e que tinha como objetivo dar voz aos trabalhadores e o povo oprimido. Segundo, Thalisse Souza:

“O clima de rebeldia e insatisfação facilitava a recepção da música-denúncia pelos guetos do terceiro mundo e facilitava sua propagação. Assim, o reggae foi responsável por criar um ambiente crítico dentro da música, trazendo em suas letras reflexões sobre divisão de classe, pobreza e exploração” [5].

Os trabalhadores maranhenses nos anos 70 encontraram no reggae uma maneira de expressar suas angústias e sofrimentos. A ditadura se apoiava no arrocho salarial, no racismo e na ausência de inúmeros direitos, como o direito à greve, para massacrar o povo e os trabalhadores e garantir os lucros para o capital financeiro. Mas quando ouviam reggae e organizam as radiolas, mostravam para os militares e a burguesia brasileira que iriam denunciar suas atrocidades e crimes através da cultura. O reggae traduziu todo o ódio e sofrimento da juventude negra e dos trabalhadores nas periferias de São Luís nos anos 1970.

Mas não dava pra ser diferente. As periferias de Kingston, Trenchtown e Shantytown, berço do reggae na Jamaica, tinham muitas semelhanças com os bairros pobres e precários de São Luís. Uma população atravessada pela pobreza, com muitos trabalhadores vindo do meio rural e fortemente marcada pelo racismo. Os músicos e artistas do reggae jamaicano “se tornaram porta-vozes da desilusão e da raiva do povo” [6]. A Jamaica passava por um momento muito profundo da luta de classes e de questionamento do Partido Trabalhista Jamaicano que após ter chegado na cabeça do governo pós-independência seguia atacando os trabalhadores e o povo pobre.

O reggae surgiu na Jamaica como a música dos incansáveis lutadores e lutadoras que organizaram junto aos rastaman, a juventude trabalhadora e estudantes universitário o movimento Black Power jamaicano. À medida que avançavam na luta e em sua organização, os sound systems e o reggae passaram à forma musical e cultural que expressavam seu ódio de classe à luta contra o racismo.

As conexões entre a Jamaica e o Maranhão iam mais além das explicações que comumente vemos nos livros de história sobre surgimento do reggae. Certamente não podemos descartar nenhuma delas e o que de fato pode ter ocorrido é que com o fluxo de trabalhadores portuários na cidade de São Luís, eles trouxeram consigo os LPs de reggae que acabaram circulando entre a população. As rádios jamaicanas e do caribe, na realidade há muito tempo já sintonizavam ritmos musicais como a salsa e o merengue, o reggae foi mais um ritmo que os maranhenses puderam captar através de frequências de rádios clandestinas. Mas o que de fato conectava as periferias de Trenchtown e as de São Luís era a luta de classes. Não causa nenhum espanto saber que o grande ícone do reggae a nível mundial foi um operário da indústria de autopeças jamaicana, Bob Marley e que no Brasil, Edson Gomes se consagrou ao lado de tantos outros, como um dos grande artistas nacionais com letras denunciando a desigualdade social, a polícia e a pobreza. Sem sombra de dúvidas o reggae desde seu surgimento foi a expressão da luta negra e operária.


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FOOTNOTES

[1Luiz Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe. “1976: Movimento Black”, 2016, p. 134

[2Documentário “A tribo do Reggae”, 2019. https://www.youtube.com/playlist?list=PLA4CgnDUud3EmsKJZMR6z7G4VPe4hQzQG

[3Marcus Ramúsyo Brasil. “O reggae no Maranhão: música, mídia e poder”, 2011.

[4Euclides Moreira Neto. “O poder simbólico das radiolas de reggae na cultura maranhense”, 2011, p.42.

[5Thalisse Souza. “As “ariris” contam sua história: participação feminina no reggae de São Luís”, 2016, p. 33

[6Idem
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