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Debate Eleitoral - SP | Para os candidatos da ordem ao governo de SP, educação é plataforma para empresários

Aconteceu, no dia 07/08, o primeiro debate entre os pré-candidatos a governador ao estado de São Paulo: Fernando Haddad (PT), Tarcísio Teixeira (Republicanos), Rodrigo Garcia (PSDB), Vinícius Poit (NOVO) e Elvis Cezar (PDT), com a exclusão dos pré-candidatos da esquerda o debate foi bastante balizado pela direita que de forma demagógica e cínica buscou pautar temas como violência contra a mulher e educação. Neste artigo vamos apresentar como o tema da educação apareceu no debate e como os projetos colocados não são alternativa para os trabalhadores e a juventude.

Sergio AraujoProfessor da rede municipal de São Paulo e integrante do Movimento Nossa Classe Educação

quarta-feira 10 de agosto | Edição do dia

Imagem: Montagem UOL

O debate foi promovido pela Bandeirantes, a emissora cujo presidente, Jhonny Saad, fez parte daquele famigerado jantar de setores da burguesia com Temer, no apartamento do empresário Naji Nahas, dono do terreno onde ficava a comunidade Pinheirinho e que a polícia de Alckmin violentamente desocupou. Então, nenhuma surpresa que o primeiro destaque a se fazer é a exclusão da esquerda no debate, como do metroviário Altino Prazeres (PSTU), além de Gabriel Colombo (PCB) e Carol Vigliar (UP). Num debate em que a classe trabalhadora não teve voz os rumos da discussão foram pautados pela direita.

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Esse é o caso do tema da educação, um dos principais assuntos pautados durante todo o debate. Como disse Maíra Machado que é pré-candidata a deputada estadual em SP pelo Polo Socialista e Revolucionário:

Começamos com o atual governador e candidato à reeleição, Rodrigo Garcia (PSDB), que nada mais fez do que reivindicar os “louros” da política de educação do PSDB que herdou de Doria, Alckmin, Serra, ou seja, de ataques, precarização, retirada de direitos e nenhuma preocupação com a situação dos estudantes. Afinal, foi o PSDB, na época com o Alckmin, que quis fechar dezenas de escolas pelo estado, mostrando que educação e escola são peso morto para eles. O que conseguiu parar esse intento psdbista foram as ocupações de escolas realizadas pela juventude que esses diziam ser a “geração perdida”. No Brasil da fome de Bolsonaro, Rodrigo Garcia quis reeditar até mesmo o racionamento da merenda, igual fez Doria em 2017 e o escândalo do governo Alckmin que ficou conhecido como o “ladrão de merendas” ou o “governador que roubava merendas”. Durante a pandemia, milhares de alunos não tiveram acesso a alimentação e estudo, e depois de anos de pandemia, grande parte das escolas voltaram ainda sem estrutura mínima para funcionarem adequadamente. Garcia ainda teve a pachorra de se vangloriar da nova carreira da educação, um verdadeiro engodo que aumenta a jornada de trabalho, retira direitos dos professores, abrindo mais espaço para o aumento de assédio e perseguição. Além disso, como se não bastasse acabar com as faltas-aula, com as abonadas, Garcia cortou a gratificação noturna dos professores da rede. Esses ataques prejudicam não só os professores que se matam de trabalhar, mas também os estudantes, já que encontram professores desmotivados, esgotados e muitas vezes adoecidos.

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O reacionário Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato do Bolsonaro, já começou o debate reivindicando todo o legado de ataques e reformas pós golpe institucional, que só aprofundaram o cenário de aprofundar a precarização da educação que temos hoje e que um dos principais símbolos é a Reforma do Ensino Médio. Tarcísio começa de forma emblemática citando o mote de Michel Temer, dizendo que a educação é uma “ponte para o futuro”. Obviamente não diz que esse futuro vem sendo cada vez mais um futuro de precarização, uberização e baixos salários para toda a nossa classe e juventude. A Reforma do Ensino Médio foi a primeira reforma aprovada pelo golpista Temer e sucedida justamente pela Reforma Trabalhista, mostrando que veio em combo e de forma nodal. Tarcísio demonstra em inúmeras oportunidades que será a continuidade da política de Bolsonaro para a educação: cortes de verbas, militarização de escolas, ataques ideológicos, privatização, homeschooling, ataques aos trabalhadores da educação, repressão contra a juventude, opressão de gênero…e a lista segue. Como propostas, Tarcísio ainda reivindicou parcerias com o setor privado no ensino técnico e o excludente ensino híbrido como forma de recuperar as aprendizagens, um modelo que só é bom para os grandes grupos de empresários da educação donos das plataformas de ensino, enquanto crianças e jovens não conseguem sequer um prato de comida por dia, e não vão ter condições para o ensino híbrido.

Servindo para jogar ainda mais à direita o debate, estava ainda presente Vinicius Poit do partido Novo, que se orgulha em defender o desmonte dos serviços públicos em prol da privatização e que conta em seu rol figuras abjetas como o governador Zema de Minas Gerais e vereadores como Fernando Holiday e Cris Monteiro. Poit representou a cara, literalmente, da Faria Lima no debate, defendeu as parcerias com os institutos privados de educação e que as escolas devem ensinar empreendedorismo desde a educação básica. Como disse a professora Maíra Machado a “cara nefasta disso vemos na Reforma do EM atual que é casada ao aumento da uberização e precarização do trabalho presente na vida dos nossos alunos e seus pais”. Ensinar empreendedorismo e educação financeira nas escolas públicas é a forma canalha de dizer aos jovens que precisam se conformar com trabalhos temporários e precários e aprender a se virar com baixos salários. Point também citou “ensinar projeto de vida” para os estudantes, mas nós sabemos qual projeto de vida ele e os demais querem para as crianças e para a juventude.

Por fim tivemos Elvis Cezar, ex-prefeito de Santana de Parnaíba - hoje do PDT (ex-PSDB) - que entrou no mesmo bojo de outros candidatos sobre a demagogia da valorização dos professores na educação de forma totalmente genérica e com um plano mirabolante de formar programadores em escolas que mal contam com infraestrutura de rede e computadores. Aliás não custa lembrar que o PDT, partido de Elvis Cezar, hoje abriga Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes, que foi governador do Ceará e Ministro da Educação de Dilma Rousseff, que em 2011 soltou uma frase emblemática de como encara a valorização dos professores: “Professores têm que trabalhar por amor, não por dinheiro”, na época era do PSB, partido do agora vice de Lula, Geraldo Alckmin. Também não custa lembrar como em 2019 o PDT tratou os professores em greve. Waldez Góes, que segue governando o estado até hoje, cortou ponto dos educadores que reivindicavam reajuste salarial e denunciavam a situação das escolas em que até merenda faltava.

Frente a esse cenário dominado pela direita muitos olham para Haddad como aquele que dá esperança para romper com os anos de ataques e precarização do governos do PSDB, porém o que se viu no debate contradiz essa expectativa. E não somente porque a frase final de Haddad foi reivindicar a aliança com figuras como Alckmin e Marina Silva.

Fernando Haddad (PT), praticamente iniciou e finalizou sua participação no debate falando sobre educação, como vem sendo toda a sua campanha, porém foi incapaz de falar de um programa que inclua a revogação dos ataques à educação que os governos do PSDB aplicaram por décadas em SP, como a própria nova carreira. Fazendo apenas acenos mais tímidos em relação ao confisco das aposentadorias dos servidores. Conhecido publicamente como o mais tucano entre os petistas, Haddad defendeu no debate as parcerias público privadas e na educação e diz que quer realizar parcerias com o Sistema S, financiado e dirigido por empresas privadas, para alavancar o ensino técnico através das ETECs. Justamente uma forma de sinalizar para esses setores do empresariado que estará disposto a agradá-los também na educação.

E isso não é surpresa pois desde quando atuou como ministro da educação nos anos de governo do PT, Haddad sempre teve ligação com esses setores privados. Haddad é “pai” das políticas nacionais como Fies, Pronatec e Prouni que injetaram dinheiro público em instituições privadas. Recursos públicos que financiaram a formação de grandes monopólios empresariais de ensino como a Kroton, ao invés de focar todo o financiamento para ampliação de qualidade das universidades públicas pelo país. Não podemos esquecer que entre os signatários do manifesto do movimento “Todos pela Educação” de 2006, além de Bradesco, Itaú, Telefônica/Vivo, Unibanco, Natura e Fundação Lemann, temos ali Fernando Haddad. Essa política nada mais é do que repassar dinheiro público para os setores privados que têm avançado pela construção do desmonte da educação com o objetivo de tornar o Ensino Médio em momento de preparo de mão de obra barata, precarizada e sem direitos, e para isso é preciso atacar toda a educação pública de conjunto para implementar os seus interesses.

Haddad era ministro da educação quando o Plano Nacional de Educação foi enviado ao Congresso pelo governo federal, para aprovação, que depois seria consumada em 2014, no governo Dilma. O PNE ficou conhecido como o "plano privatizador", já que toda a estrutura possibilita exatamente o repasse de verbas públicas para a educação privada. Além disso, retirou do texto original toda e qualquer menção a educação sexual e debate de gênero nas escolas, já por pressão da bancada evangélica que cresceu e ganhou espaço justamente nos governos petistas.

Mas a principal bandeira repetida do início ao fim do debate por Haddad é a de trazer a experiência dos Institutos Federais que atendem o Ensino Médio para o estado. Sabe-se inclusive que nos últimos anos também vieram sofrendo com cortes, porém sabemos que os salários e as condições de trabalho por lá são bem superiores aos da rede estadual. Porém Haddad não fala em momento algum em equiparar as condições de trabalho, por exemplo. E não é só isso, Haddad chega a afirmar que sem revolucionar o Ensino Médio aos moldes da IFs a juventude seguirá desempregada ao terminar os estudos, transformando isso numa solução mágica, desconsiderando todo o cenário de crise econômica, desemprego, péssimos salários e empregos precários do país. Como disse Marcello Pablito, também pré-candidato de esquerda pelo Polo Socialista e Revolucionário:

Haddad centra seu discurso no Ensino Médio, mas não diz sobre revogar a Reforma do Ensino Médio que é a cara da educação para a precarização e uberização que temos no país e está em perfeita consonância com a reforma trabalhista, que precariza ainda mais o trabalho docente e transforma o ensino num grande vazio de conteúdos.

O debate na Band foi um bom exemplo pra mostrar como nessa disputa, cujos principais protagonistas são Haddad, representando a política de conciliação de classes, de alianças com a burguesia, do PT em sua versão estadual; Tarcísio, com o projeto obscurantista, reacionário e privatista do bolsonarismo; Rodrigo Garcia e a continuidade do legado maldito do PSDB no estado - nós trabalhadores, educadores e filhos da classe trabalhadora não temos o que esperar. É necessário atuarmos com independência de classe. Educadoras e educadores juntos com a comunidade escolar precisamos estar organizados e lutando contra os problemas da educação pública, por melhores condições de trabalho nas escolas, por alimentação saudável para nossos alunos, pela contratação de professores e ir por mais, lutar para derrubar os ataques e reformas como a trabalhista e do Ensino Médio. Mas sem cair na conciliação de classes de Lula e do PT, que grande parte da esquerda embarca junto como é o caso do PSOL, de que junto com nossos algozes, lado a lado de Alckmin, ou de setores da patronal como Fiesp e banqueiros como a Febraban, será possível derrotar a extrema-direita, Bolsonaro ou o legado de ataques que assolam nossa classe, não por acaso em diversos estados o mesmo PSB de Alckmin e de Márcio França irá embarcar em candidaturas bolsonaristas.




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